domingo, 30 de novembro de 2014

Siglas

Saio de casa com os caminhos indefinidos
Em volume máximo R.A.P. nos meus ouvidos
STK ou RDC conforme estiver a moral
A noite começa e o SLB joga na catedral
Pego no LG e faço umas chamadas de telefone
Mas ninguém atende e começa a dar-me a fome
Páro  no KFC até que finalmente alguém me liga
Dizem que vão para o BA e eu sem pensar duas vezes digo "siga"
Estamos num bar qualquer e a minha visão a dobrar vê
Mas pouco me importa quero o meu copo cheio de JB
Eles dizem que querem ir pra outro sítio e eu não entendo o porquê
Mas o físico não perdoa então dirijo-me ao WC
Já não me choca o que vejo enquanto tento que a minha mente não baze
Miúdos a tomar MD's como se de M&M's se tratasse
Saio mais sóbrio, quero mais XO no meu sangue
Passa a PSP e dizemos boa noite bem educados para que ninguém se zangue
Caminhamos e passamos à porta do BBC
Vemos miúdas alteradas cá fora, vítimas do GHB
Questiono-me sobre o desespero de quem recorre a isso para quê?
Mas vejo os motivos que só um cego é que não vê
Elas agora já só olham para os miúdos pela quantia que têm no BCP
Já só lhes ligam quando o transporte diz BMW e não CP
Ou vestes CK ou D&G, podes esquecer a camisa do C&A
Elas já só querem a tua companhia pelo jeito que lhes dá
Começas a sentir-te impotente e tentas mudar algo em ti
Mas os teus pais dizem que não te podem comprar roupa nova por causa do FMI
Tu não percebes és demasiado novo para perceber
Mas continuas a precisar dos mesmos euros para as coisas que queres ter
Metes-te no caminho das ruas a vender o que te dão para a mão
Começas a ver a GNR como um inimigo ou opressão
Mas não tens culpa, só não queres sentir fome no teu corpo
Enquanto vês PS's e PSD's decidirem o teu destino como desporto
Numa AR mais corrupta que a UEFA
E vês as voltas que a tua vida leva
Começas a ouvir falar de IRS, IVA e IMI
Problemas consomem-te mais tempo que intervalos da TVI
Tu iludido por um futuro que te prometeram e já não lá está
Diabético de uma infância em que devoraste MCA
Mas agora vês a manipulação que recebeste pela TV
Enquanto na boca matas a ressaca com um LM ou SG
Para o mundo és indiferente, visto como mais um stress
A menos que sejas burro o suficiente para passar num casting do SS
Aí colocam-te num televisor a receber amor por desconhecidos no FB
Passam a PDA agarrados a uma caixa à espera de te ver vencer
Mas essa vida não é para pessoas como tu
Ter jornalistas colados a ti como por UHU
Não tens espaços para luzes e fama
Preferes ter dinheiro no bolso e arriscar ires de cana
Sem querer metes-te numa guerra que nem à ONU preocupa
Onde não reparas que tens os teus telefones sobre escuta
E a polícia aparece na tua rua com AK's e Bakoozas
Para desmanchar o esquema em que estás envolvido em que tu te fiavas porque resulta
Mas na luta um dos teus falsos BFF's saca duma UZI 
Dispara umas balas para o ar e foge para longe de ti
Estás encadeado por faróis mas a polícia atira sobre ti e poof
Só te lembras da ambulância do INEM e da entrada na CUF
Olhas para as veias e tens agulhas em todas elas
Assistes a cenas que só vias na FOX e em novelas
Mas o teu sangue já não corre, entras em AVC
E RIP na tua lápide é o que toda a gente lê.








domingo, 23 de novembro de 2014

Sem saída

Olham para a minha cara trancada com insatisfação
Acham que ando assim porque quero, percebo a indignação
Mas nenhum procura saber a verdadeira razão
É que eu já dei um sorriso em troca de uma desilusão

E os dias passam, e por muito que bata não me abrem uma porta
Nem acredito em Deus, mas deve ter sido ele a escrever a minha vida torta
Não importa, porque tento manter-me firme
Mas dispararam tanto sobre a minha esperança que devia ser considerado crime

Ao meu redor só vejo indivíduos sem grandes aspirações
Intoxicam-se tanto que a realidade é que parece alucinações
E tu que te achas superior, não faças confusões
Não te armes em O'Leary que viras peixinho dourado neste lago dos tubarões

Porque aqui não há espaço para sociais com pseudo-fama
Aqui roubam-te o que tens para comprar a próxima "instagrama"
Não é por luxúria ou porque querem acabar na lama
Mas apenas porque é o que lhes adormece a dor quando chega a hora de ir pra cama

Eu não me meto nisso, talvez apenas por orgulho
Ou porque sei que é como ir amarrado aos mares do Meco dar um mergulho
Já não voltas, é um beco sem saída, um poço sem fundo
Cais na irrealidade de um sono demasiado profundo

Amor? Procurava-o como uma fuga às vezes
Mas espanquei tanto o cúpido que sou julgado no concílio dos Deuses
Numa sentença aprovada mais que uma vez por diversas unanimidades
Porque até o meu advogado me queria ver atrás das grades

E assim fiquei, preso sem ninguém
Sequestrado, usado e refém
Esperando um milagre que nunca vem
Destruindo um futuro que nunca montei.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Yin-Yang

Sinto que uma metade de mim fugiu
A outra metade a sentir a falta dela ruíu
E agora o meu interior está vazio
Onde está o teu calor para me aquecer deste frio?

As tuas qualidades curam os meus defeitos
Colas sentimentos em mim que julgava desfeitos
Fazes-me ter acções que vão contra os meus preconceitos
E fazer-me soltar sorrisos é só um dos teus efeitos

És a luz que me tirou deste beco escuro
Trouxeste à minha vida algo puro
Criaste música quando eu só ouvia barulho
Amoleceste um coração que era frio e duro

Preenches as minhas carências na perfeição
Não precisas de um único toque ou interação
Dás vitalidade à minha imaginação
És a única droga que consumo em busca da alucinação

És o meu lado lunar que me fazer perder de mim
Astronauta de galáxias que nunca conheci
Já não me lembro da última vez que me senti assim
Mas não quero que isto tenha um fim

Aceitaste-me sabendo o risco que corrias
Deixaste-me a adivinhar o que sentias
Eu tentei acompanhar apenas aquilo que fazias
Mas não me soube contentar com mordomias

E agora nestes versos cheios de ideias vazias
Continuo a querer-te por perto
Porque despedaço-me um pouco mais sem ti todos os dias
E quero de novo sentir-me completo.

Papercuts From The Moon (English Blog)

http://papercutsfromthemoon.blogspot.pt/

Novidades para breve...

Ou Não? (Inspirado em Or Nah)

Ambos sabemos que somos loucos. Ou Não?
Já nos começamos a conhecer aos poucos. Ou Não?
Que detestamos rotinas e monotonias. Ou Não?
Que confias menos na medicina que nas minhas terapias. Ou Não?
Não vais ficar parada à espera. Pois não?
Vens explorar o que o teu coração acelera. Ou não?
Vamos tratar dessas carências. Ou não?
Fazer-te perceber as diferenças. Ou não?
Vais deixar-me mimar-te como ninguém. Ou não?
Vamos fazer aviões de papel com notas de cem. Ou não?
Vamos gastar fortunas em álcool. Ou não?
Impedir os nossos cérebros de ficar sóbrios até ao nascer do Sol. Ou não?
Vais despir a roupa e a moral que tens. Ou não?
Vamos do pecado ficar reféns. Ou não?
Vamos deixar os nossos corpos entrar em ebulição. Ou não?
Vamos viajar enquanto eles se conectam. Ou não?
Não vamos perder mais tempo. Pois não?
Deixaste-me demasiado à espera por este momento. Ou não?

Então faz a mala, pega nas tuas melhores roupas, despede-te das pessoas, agarra na tua loucura e em poucas outras coisas, e senta-te no meu colo enquanto eu guio para um lugar até o carro ficar sem combustível e eu sem forças.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

É tudo.

Não jogues um jogo que não sabes as regras
Sem coragem nem as cumpres nem as quebras
Se calhar a minha valentia não te dá a garantia que eu queria
Mas tinha certezas que a minha simpatia não te feria
Regalia, a que tu tiveste de eu te dar confiança
Uma herança sem herdeiros a que estava preso mas tu pagaste a fiança
Grande esperança, que eras diferente, especialmente na forma em como me julgavas
A maneira como me tratavas, a atitude que não entravas, por um mal que não receavas
O que esperavas? Que eu sem juízo tivesse consciência de pecados que aos meus olhos eram virtuais
Ilegais, sem crime ou sentença das nossas ações iguais
Quem nomeou o advogado do diabo que me condena sem razão
Ou a realidade em que vivíamos era apenas minha ilusão?
Sempre ao tropeção, nas minhas utopias ridículas de que alguém estaria em sintonia comigo
Acreditar em fantasias com esta idade, seguir os becos sem saída que eu sigo
Reciclo todas as emoções estapafúrdias de que os travões somos nós que pressionamos
Porque a mim isto parece uma estrada molhada em que não tive medo de acelarar num veículo que não é o que esperamos
Planos? Tinha muitos, por anos, a troco de honestidade e tolerância
Mas estou com um peso nas costas não partilhado que partiu a balança
Cansa saber que um desrespeito floriu duma planta morta
Duma insegurança que entrou numa sala sem porta
E o agora o que importa? Nada porque isto trouxe-me ao zero
Que também sendo um número mostrou-me que nada é como eu quero
Desespero? Não, talvez um pouco por desilusão
Que tudo o que eu passei ser simples, acabou por fazer confusão
E a razão? Fica com ela, eu fico com a vergonha
De à conta de um tiro mal disparado tenho de passar a noite a secar as lágrimas da fronha.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

"CRIAtura"

Sei que a minha irreverência te enlouquece
O meu vulto apenas te amedronta, Loch Ness
Compreendo, eu sou doentio e macabro
Sombrio, vendi a minha alma ao diabo
Eu cheguei, agora é uma nova era
Sou a junção de todos os teus medos, Quimera
Obstáculos eu vou por cima como Hippogrifo
Inimigos olham-me nos olhos e eu paralizo-os, Basilisco
Se sentes inveja então calcula
As mulheres que me dão sangue, já me sinto Dracula
Força de Cyclop, a inteligência de Einstein
Parece que não nasci, fui construído, Frankenstein
Eu sei que esses ódios e raivas por mim te consomem
Mas não queiras vez o meu lado lunar, Lobisomem
Mas tu pelos labirintos que te metes também és um titã claro
A juntar ao marfim que exibes na testa, Minotauro
Mas assim como na mitologia vais abaixo antes que sintas
Porque se me matarem eu sou como a Fénix, renasço das cinzas.



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Pior de Ti

Devia ser aquele pináculo da perfeição
Tratar-te bem em toda a ocasião
Fazer de ti a minha maior prioridade
Cuidar de ti como uma necessidade

Mas infelizmente eu não sou assim
Sempre te disse para não esperares grandes feitos de mim
Sou o oposto do príncipe encantado que pensas
E aos poucos começas a ver as diferenças

Eu vou-te tratar mal quando tiver de ser
Com intenção ou até mesmo sem querer
Habitua-te a que te deixe de responder
E quando eu estiver chateado nem te vou dizer

Desilusões espera infinitas
Vou ter acções egoístas
E quando achares que vou estar lá para ti
Vou andar meio perdido por aí

Vou ser sempre sem maneiras
Fazer-te fazer perder as estribeiras 
Dizer palavrões, dar empurrões
Usar mentiras como ratoeiras

Vou estar sempre mal humorado
Manter-me de ti afastado
E quando vires a minha cara trancada
Vais perceber que não quero estar do teu lado

Todas as fantasias que poderias ver em mim
São sonhos imbecis que têm fim
E por muito que me tentes mudar
Nada entre nós se vai alterar

E o pior disto é que mesmo que me devas mandar embora
Vamos querer estar juntos como agora
Vais continuar a querer-me a ti agarrado
E eu vou querer o teu corpo a mim colado

Porque por mais que seja este monstro que sei que sou
É irrefutável o que destino pintou
O pior de ti sou eu e isso eu sei
Mas também nunca te abandonarei.
 


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

7777

De manhã quando acordo em sobressalto
Saio da cama e parece que te vejo em todo o lado
Parece que o sonho que tenho durante a noite quer ser real
De facto o meu presente seria muito mais engraçado

Escrevo sobre ti sem saber qual é o intuíto
Não preciso de talk shows pra saber que comigo fazes curto circuito
E é radical a forma como desde que conheci
Vejo que ter toda a sorte do mundo seria ter-te a ti

Não tem lógica e os meus argumentos tornam-se silogismos
Desculpas que invento para nos resistirmos
E não é sinismo quando te tento fazer acreditar que não valorizo
É o medo que percas o interesse em mim que é o que menos preciso

Verdade é tudo o que posso sentir
Não vês o meu nariz a crescer, como é que te posso mentir?
Que tudo o que tenho para te dar é puro
Um presente poético com potencial para ser um livro futuro

Uma história sem parte ilusória com peripécias especiais
Como um filme de cinema baseado em factos reais
Imagina fazermos desses contos de amor amadores
Por o nosso cenário ser o mais colorido, pintado por todas as cores

Vou apanhar as constelações para te oferecer estrelas todos os meses
E para os momentos em que te falhar às vezes
Prometo tentar não o fazer regularmente
Mas prometo que vou lá estar para te agarrar sempre

Lamechices que nunca chegam para te abordar
As mesmas lamechices que te vais acabar por cansar
Mas estou disposto a correr esse risco para ver do que somos capazes
E vou fechar os nossos segredos todos a 7 chaves.


Acham que quero saber?

Olho à minha volta e vejo demasiado ódio
Inveja nas pessoas como se as viciasse como ópio
Insultos e difamações disparados devido ao "disse que disse"
Mas nenhuma dessas balas me parece acertar, Matrix

Fixa, nenhuma opinião me faz desviar do meu caminho
Por muito que me tentem isolar eu nunca  vou estar sozinho
Apenas das critícas constructivas eu sou fã
Já vossa maturidade nunca mais cresce, Peter Pan

Nesta Terra do Nunca em que quis viver
Nada chega de borla, paga para ver
Os sonhos por vezes têm um percurso intenso
Memórias apagadas por álcool ou pelo acender de "incenso" 

Imenso é o número de ollhares reprovadores que recebo
Invejar a minha luz é algo que até percebo
Muitos querem fazer aquilo que eu faço
Muitos querem ser como eu mas o talento está escasso

Embaraço, quando me apontam que o que faço é ilegal
E tudo o que penso só pode ser imoral
Pareço-vos religioso? Então estão mal
No máximo sou satânico porque até gosto do Diabo e sei o que ele vale

Querem que eu me cale? Lamento, não vai acontecer
Pisem-me a cabeça à primeira oportunidade que possam ter
Morrem a tentar, porque nunca vão perceber
Que sou um bicho de sete cabeças, tenho mais seis para vos desfazer

Se a minha voz vos faz barulho, tapem os ouvidos
Que eu atormento-vos como as minhas noites de sexo aos meus vizinhos
Eu vou continuar assim, é a minha maneira de ser
Tenho uma irreverência que nem com correntes podem prender.




quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Amante

Relação segura e fiel, é o que tu pensas
O que vês e a realidade têm algumas diferenças
Pois quando estás em casa ela só tem olhos para ti
Mas quando sais ela tem o resto do corpo para mim

Quando tu vais de viagem ela dá-me o toque
Só porque eu lhe toco como tu não tocas
Eu faço-a sentir como tu nunca farias
Sou capaz de concretizar todas as suas fantasias

E eu vou lá estar sempre para a ter comigo
Nada nos excita mais que o perigo
Sem medo que apareças sem avisar com uma arma
Passo mais tempo escondido no teu armário que já me chamam Narnia

Todos os dias tento por fim a esse falso amor
Porque sei que ela não me quer apenas pelo calor
Pelos momentos sem pudor, há mais no interior
Pois quando tu a maltratas eu cuido dela e saro-lhe a dor

Ela encontra em mim o que que queria encontrar em ti
E tu nunca vais poder tê-la a 100% enquanto eu estiver aqui
Porque por mais que ela te queira nessa ilusão imensa
Até quando está contigo é em mim que ela pensa

Compensa a vida que levo? Talvez não
Mas também nunca tive medo de confusão
E se para a ter comigo tenho de viver na sombra que seja então
Porque o que vivemos é mais que real que a vossa própria relação

Sensação que a minha posição de amante um dia vai acabar
Um dia a consciência vai fazê-la acordar
E aí sente as reviravoltas que as nossas vidas podem dar
Porque eu vou estar a sentir as reviravolta numa cama que já fora o teu lugar.






terça-feira, 4 de novembro de 2014

Desculpa

Ninguém consegue escolher de quem gosta
E isso deixa muita gente mal-disposta
Eu fico triste quando dá à costa
Alguém que não é o suficiente para ser aposta

Ela é assim, só tem olhos para mim
Vem ter comigo mesmo quando não estou afim
Dá-me valor como ninguém
Eu gostava de lhe dar o mesmo valor também

Mas por mais que tente eu não consigo
Ela já sabia que eu represento perigo
Mesmo assim insiste em ficar comigo
Mesmo que isso seja mais um castigo

Não tem nada a ver com o físico dela
Nas redondezas não há mais bela
Um bom sorriso e um corpo com tudo no sítio
Mas por mais que queira não se torna vício

E ela sabe aquilo que eu sinto
Ou melhor, aquilo que eu não sinto
Ela bem pede mas eu não minto
Amor é coisa que não finjo

Quando eu saio eu sei que ela chora
Porque sabe que posso não voltar quando vou embora
E dá em doida quando não respondo mais de uma hora
Porque não quer perder oportunidades pra dizer que me adora

Não é defeito, é feitio, eu até sonho
Mas está na minha essência, eu não me apaixono
Claro que me custa quando a deixo ao abandono
Quando as minhas saídas lhe tiram horas de sono

Sem compromissos, sem motivos pra sermos fiéis
Mas ela insiste em ver as mensagens que troco com a minha ex
A ler palavras que nunca lhe vou dizer
Sentimentos que ela nunca vai perceber

Já tentei que ela percebesse e me deixasse
E esperar que um rapaz a sério chegasse
Mas ela diz que eu lhe causo dependência
E não se importa de ser ela a matar a minha carência

Talvez um dia no futuro as coisas mudem
Vamos ver como as emoções surgem
Mas até lá partilhamos a culpa
Eu sei que queres mais mas desculpa.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Saudades do que nunca tive

Hoje acordei com saudades. Não sei, é estranho. Normalmente quando sinto saudades os cenários das minhas memórias parecem-me bastante explícitos e concretos. Afinal não passam de momentos que realmente vivi e que por não poder recuperar deixam saudade. Mas desta vez é diferente. Desta vez vejo-me obrigado a imaginar toda a realidade que me deixa em baixo por não ter. Criar memórias... Parece engraçado se a dor de pensar não retirasse todo o tipo de prazer lúdico que poderia trazer. É como sonhar mas de forma consciente de um pretérito que não aconteceu. E porque é que tinhas de ser tu o alvo de todas essas não-memórias que desenhei, esculpi e colori? Não sei, mas é divertido ponderar que se calhar um bocadinho de mim queria que todas essas memórias fossem reais e que a dor de as perder fosse real também. Encenei sem querer o nosso primeiro encontro aleatório, num sítio qualquer, nada muito cliché, em que os nossos olhares se cruzassem pela primeira vez e quiçá se desejassem pela primeira vez. O primeiro "olá" atrapalhado, a tentativa de conversa falhada por culpa dos nervos ou da timidez que não estamos acostumados a ter, algo que impediu sermos nós próprios. As primeiras horas de sono perdido a pensar em ti, e na sorte em te cruzares comigo. O primeiro desabafo com os amigos sobre o ridículo e minúsculo (até ver) interesse em ti. A primeira descasca colectiva por ninguém acreditar nas minhas boas intenções e emoções verdadeiras. Depois o reencontro, mais descontraído, de noite talvez, o primeiro diálogo planeado, o achar das coisas em comum, mesmo as coisas incomuns aos outros mas que para nós são comuns, o nascer dos assuntos, as semelhanças na música, na literatura, no cinema... política e religião seria eticamente e moralmente incorrecto de explorar... mas objectivos, ideias, filosofias, a conexão dos nossos cérebros sem juízo que afinal se compreendiam até. A primeira troca de contactos, não os físicos para já, mas aqueles que serviriam de pequeno aperitivo para matar a fome de interagir contigo, uma mensagem aqui, uma indirecta acolá, tudo é válido para chamar a atenção e espicaçar sem grandes subtilezas só para nutrir um pouco a ligação que a rotina nos obriga a ter à distância. O primeiro plano a dois, nada muito íntimo (ao contrário do que eu quereria), um cinema, um filme qualquer sem grande cartaz, sem grande projecção, uma desculpa emancipada só para passarmos mais um tempo juntos, até porque sem dar conta a tua presença já me viciava. Conversa atrás de conversa e fico insaciável de poder estar contigo, assim surge a primeira saída. Com ela surge também a primeira saliva derramada no chão por mim quando te vejo aperaltada, bem-vestida e maquilhada, sem grandes folclores, elegante, com classe mas também com alguma rebeldia misturada, como um misto de delicadeza e irreverência. O primeiro jantar, os primeiros sorrisos mais indiscretos, o primeiro bar visitado, a primeira bebida partilhada, o primeiro momento descomedidos no álcool, as primeiras respostas sem sentido, os primeiros tropeções até à tua porta onde te levaria a pé para te deixar segura, o primeiro beijo.., Oh! Sim, espera... antecipei-me. A última palavra trocada da noite, o último riso ligeiro apagado pelo silêncio da noite, o compasso de espera para que encontrasses a chave de casa na mala, o primeiro passo em frente, depois outro, o primeiro olhar intenso, o primeiro foco nos lábios carnudos e ridiculamente apetecíveis, e sim (agora sim), o primeiro beijo. A primeira despedida indesejada. O primeiro passeio até casa com a cabeça repleta de ideias confusas mas um sentimento de alegria extrema. As segundas horas de sono perdidas a relembrar todos os pormenores e detalhes de um beijo com sabor a arco-iris ou algo mais lamechas. A primeira manhã abstracta. A primeira conversa constrangedora sobre o que aconteceu. O combinar de mais um encontro para esclarecer tudo aquilo que até agora parecia surreal. O primeiro abrir de coração, o explorar de sentimentos que ambos sentíamos, o reflectir sobre as intenções que nos queriam o unir, e o assumir de um amor que repentinamente surgia sem avisar. Chegar aos rapazes e apresentar-te como a minha miúda, oficial como se de um casório se tratasse (já lá vamos), os comentários idiotas e despropositados causados pela euforia de me verem feliz contigo. Conhecer as tuas amigas que estranhamente já sabiam mais sobre mim do que eu imaginaria. Começa assim a nossa aventura, uma história que eu queria escrever em verso por toda a poesia que me fazias viver. Pegar em ti e dar-te um mundo... um mundo é pouco... dar-te um universo. Levar-te a mil concertos, mil teatros, exposições de arte... idas ao estádio, tardes em jardins, passeios à beira-mar (oh, muito cliché), mas sim, acampar contigo, mimar-te com prendas e adereços, livros e todo o tipo de objectos desnecessários e felpudos que usualmente serviriam para absorver pó, mas para mim serviriam para te mostrar todos os dias que tinha mil e uma razões para te recompensar por seres quem és. O primeiro enlace físico, a primeira vez que um beijo já não chegava para curar o desejo, e que a confiança nos permitia ir mais longe. O toque, o despir, o espalhar da roupa pelo chão, as voltas debaixo dos lençóis, todo o tipo de pecados que todos os deuses aplaudiriam por ver acontecer, a nossa ligação, êxtase, sonho... tanta coisa. Queria apresentar-te aos meus pais, conhecer os teus, apresentá-los, nem sei... Mostrar-te um índice de que o que tínhamos era algo que queria que durasse, uns anos, umas décadas, um sempre... Sempre é muito tempo, mas perdê-lo contigo nunca seria um desperdício. Acompanhar-te no teu curso, e tu acompanhares-me no meu, sermos bem sucedidos e determinados, arranjar um trabalho, orientar-nos de dinheiro para gastarmos em álcool e em sonhos... Comprarmos a nossa primeira casa para vivermos juntos e não sofrermos todas as noites por não podermos dormir colados sempre. O momento certo, as velas, o champagne, os violinos, a praia, o mar, o joelho no chão, e sim arriscar tudo num pedido de casamento ao qual não aceitaria um não. As tuas lágrimas de felicidade, colhê-las todas para conter as minhas, para que não tornasse tudo excessivamente emocionante. Ah, se lixe, era bom demais pra não sentir a mínima vontade de chorar de felicidade. O dia certo, 7 de Julho, porque está calor e coincide com as nossas férias e dos que queríamos ter presentes. A igreja, os padrinhos, as madrinhas, os padrinhos a quererem as madrinhas (desculpa se vi American Pie em excesso), ver-te de branco, pouco me importava na verdade, podias estar de amarelo, roxo, azul que nenhum vestido de tornava linda, tu é que tornavas qualquer vestido no vestido mais bonito do mundo. Eu nervoso, demasiado nervoso, sem saber que latim poderia escrever nos meus votos depois das centenas de poemas que te escreveria durante anos. As alianças. Tudo perfeito como merecerias. Depois a noite de núpcias, a lua de mel... algo que não precisávamos porque desde o nosso primeiro beijo que toda a minha vida parecia uma grande lua de mel. Depois vem o momento mais importante de todas estas não-memórias. O nosso primeiro filho, ou filha nem sei... Eu com o desejo profundo que ele herdasse a beleza da mãe, a inteligência da mãe, a lealdade da mãe, basicamente tudo da mãe... talvez a safadeza do pai se fosse um rapaz. Depois veio o segundo, terceiro... sétimo (ok, talvez, não sei) e finalmente tínhamos uma família nossa. O ideal. A utopia que só nos sonhos poderia existir. Mas diferente em todos os outros aspectos modernos dos quais não éramos nada adeptos. Para nós o amor não morria, nem com trabalhos redobrados, situações precárias, tostões contados, porque para nós não existiria crise no que sentíamos. Eu continuava com a mesma vontade de te levar a viajar por todas as cidades do planeta, cruzeiros e safaris, subir montanhas e percorrer costas, todo o tipo de peripécias que vivíamos em miúdos apaixonados, viveríamos como graúdos apaixonados até que os nossos reumatismos e artroses, rótulas desgastadas e músculos enfraquecidos pela velhice não nos deixassem continuar a viver ao limite juntos.

É estranho não é? Ter saudades de tudo isto, cada vez que leio, cada vez que penso... e no fundo ser tudo completamente fruto da minha mente alucinada que não deseja mais nada que não seja irrefutavelmente te fazer feliz. E por muitas manhãs que acorde como hoje, vou sempre sonhar com as memórias que não vivi contigo, e ter sempre saudades do que nunca tive.