sábado, 23 de julho de 2016

Obra de Arte

É como se o Diabo tivesse roubado a paleta de cores ao Van Gogh e pintasse uma tela com um arco-íris inteiro mas por dentro do quadro estivessem duas tempestades à luta pelo domínio do céu.
E é exatamente isso que ela sente na sua complicada mente. Uma disputa eterna entre o que quer fazer e o que deve fazer, que raramente coincidem. Um duelo efémero entre aquilo que ela sente e aquilo que ela tem medo de sentir. E claro que estas inúmeras guerras emocionais deixam marcas profundas da sua lucidez emocional, muito porque ela sente muito. Por vezes, sente demasiado. Mas por vezes também não sente o suficiente. A constante bipolaridade entre o prazer de ser amada e o medo de ser. O receio de amar e o terror de ser usada pelo seu amor. Porque ela é um conjunto de desastres esculpidos em mármore que a preencheu de desejos, mas a cultivou de inseguranças.
Ela é a soma de todas as estações. Ela tem o Verão no corpo, a paisagem perfeita representativa do pecado, desde o mais genuíno e inocente sorriso, às curvas desenhadas com transferidor e compasso da sua pele despida. Despida de roupa, e de inibições quando a confiança em si própria supera as muralhas da sua insegurança. Por dentro. ela tem a Primavera repleta de esperança de encontrar todo o carinho que precisa, todo o romantismo que merece, com uma brisa calorosa de loucura primaveril para retribuir. No entanto, dentro de si também tem o Outono quando os pesadelos do passado a atormentam e fazem toda a beleza da Primavera se esconder nos recantos da sua mente, toda a melancolia do seu ADN se desperta e escurece toda a luz que ela usualmente emana. Até adormecer no Inverno das suas fragilidades. Refugia-se para longe, para não partilhar o frio com os outros, para se molhar sozinha na chuva dos seus segredos. Mas a rotação do seu planeta não tem qualquer lógica matemática, ou ordem calculável. As estações mudam e alteram-se de forma espontânea e descontrolada. E ela vê-se obrigada a alterar a sua estabilidade consoante as estações se manifestam dentro de si. Como um clima exótico em que de manhã faz sol, e à noite chove, e ela vê-se obrigada a trocar de vestuário, de sorriso, de emoções.
Carente na sua plenitude, mas longe do desespero carnal. Ela gosta de sexo, claro que gosta. Mas gosta ainda mais de fazer amor. Ou de fazer sexo com amor. Ou amor com sexo. Ela gosta que lhe toquem o corpo, mas gosta muito mais que lhe toquem a alma. Pode ser fácil de cativar mas perto do impossível seduzir ao ponto de conectar os seus desejos físicos com as suas necessidades emocionais. Ela gosta de se sentir desejada, mas prefere muito mais se sentir apetecida por aquilo que ela é e não pelo que ela dispõe. Como um oceano transparente que é bonito de contemplar por fora, mas que é mais saboroso mergulhar e apaixonar pela magnificência do seu interior.
Ela é um parque temático de indecisões, um circo de paradoxos sentimentais que a dividem e que confundem quem a rodeia e a ela própria. Adora sentir-se presa mas odeia sentir-se aprisionada. Gosta do conforto de um abraço, mas receia que esse mesmo abraço a limite.
Transborda inteligência mas que muitas vezes põe de lado para deixar a sua ingenuidade libertar o seu nirvana de sentimentos. Tenta ser racional quando no fundo se deixa invadir por uma imensidão sensações. Ela quer apenas seguir em frente sem ser puxada para trás. Porque ela valoriza a sua liberdade mais do que tudo, e não quer voltar a abdicar dela em troca de sofrimento. Gosta de coisas simples mas que a surpreendam, Porque para complexa já basta a sua personalidade.
Mas essa mesma complexidade que a torna incrível. Um risco saboroso de correr. Um tesouro difícil mas recompensador de abrir. Um código repleto de mistérios por descobrir que pode levar à insanidade, mas que mesmo loucos nos vamos sentir sortudos pela oportunidade de a ter por perto.
E assim se torna mágico tentar subir o monte Olimpo onde esta obra de arte do Diabo descansa, mesmo sabendo que decifrá-la pode ser um caminho sem retorno. Mas que sempre valerá a pena tentar.

sábado, 9 de julho de 2016

Gloss

Quando mal sabemos o que é gostar, mais gostamos 
Quanto menos nos queremos dar, mais nos damos
É insano o estado em que me aprisionas e manténs
Comigo não te impressionas e os meus movimentos ficam reféns

És o meu alucinógeno que me retira da realidade
Desperta o meu lado ingénuo e expõe a infantilidade
Tiras-me os pontos dos is enquanto eu procuro a razão
Porque enquanto tu sorris eu perco-me noutra dimensão

A tua silhueta é obra de arte que nem Bernini esculpiria
Da Vinci perdia os pincéis e Houdini não criava nem com magia
Que figura a minha a tomar um caminho longo sem atalhos
Não encontrava assim uma rainha nem que procurasse em cem baralhos

Mergulho no rio Lete quando te olho nos olhos, esqueço-me como se respira
Reflete que gosto de ti aos molhos, e que a tua presença me inspira
Tremo com as tuas inseguranças, tento remover as impossibilidades
Os sacrifícios por ti são danças, por ti eu engulo tempestades

Estou disposto a todos os pecados imorais desde que possa ver o teu sorriso reluzido
Torno-nos aos dois imortais, se for preciso até treino o Cupido
Vou procurar a minha hipótese, para que a nossa felicidade eu esboce no fim
Nem que recorra à hipnose, para beijar o teu gloss, e ficarmos juntos assim.