Hoje dei por mim no meio da desarrumação
Não me apercebi de ao meu redor crescer tamanha confusão
Sufocado pelo amontoado de coisas à minha volta
Decidi arrumar cada pedaço de nós que estava à solta.
Comecei muito rápido a separar as coisas por destino
As que deitaria fora e as que guardaria comigo
Não sabia se podia reciclar tantos dispersos materiais
Algumas coisas nossas eram feitas de algodão, outras de diferentes metais.
No meio da confusão encontrei álbuns de fotografias
Todas aquelas que não tirámos às nossas fantasias
Ao folhear as páginas revivia cada momento que não vivemos
E questionáva-me se aqueles locais permaneceriam os mesmos.
Junto à lareira encontrei cartas espalhadas
Talvez eu lhes tivesse pegado fogo para vê-las incendiadas
Mas se ali estavam talvez tivesse perdido a coragem
De as ver desaparecer em brazas como uma miragem.
Abri uma aleatoriamente e reparei que tinha uma morada
Duma casa onde tu não viveste duma aldeia inabitada
E onde certamente referia todas as minhas metáforas destinadas a ti
Em todos os versos que nunca te escrevi.
A um canto, encontrei cheio de pó um boneco felpudo
Pelo castanho, umas orelhas compridas e um sorriso mais bonito que tudo
Reparei no olhar decepcionado quando nos meus braços o recebi
Por ter sido um peluche que nunca te ofereci.
Por baixo dumas revistas que nunca lemos algo reluziu entre elas
Eram algumas medalhas que nunca ganhei que brilhavam como estrelas
Junto a elas um bilhete que não escreveste com o teu orgulho a descrever
Nas competições que eu não venci nem tu foste ver.
Perto da porta estava uma caixa meio-aberta
Camuflada pela poeira como se não quisesse ser descoberta
No seu interior estavam bilhetes de viagens que não fizemos
E postais de locais que sonhámos mas não estivémos.
Por todo o lado encontrei faturas de jóias que não te comprei
Varri montes de pétalas de flores que não te dei
E ao fundo do corredor encontrei roupas de mulher
Que não te serviriam mas não podiam ser de outra qualquer.
Numa prateleira cheia de objetos pequenos fui achar um anel dourado
Que nunca entraria no teu dedo nem que te o pusesse com o joelho no chão pousado
Devia representar o valor do pedido que te ia fazer
De um casamento na praia que nunca chegou a acontecer.
Ao lado do anel, estava um dente de tubarão
Achei estranho até que à cabeça me veio a recordação
Do aquário gigante onde não nos deitamos lado a lado
E onde não demonstramos o amor num gesto que não foi dado.
Consumido pelas alergias limpei a prateleira de uma vez
Até que ouvi o barulho de algo que caiu aos meus pés
Peguei, era uma chucha que devia pertencer
À nossa filhota que nunca chegámos a ter.
Suportes com Cd's de musica que nunca nos chegou aos ouvidos
Uma banda rock, uma diva do Brasil e outros artistas perdidos
Dvd's espalhados por todo o tampo da mesa
De séries policiais que não acabámos de ver de certeza.
No meio da sala encontrei uma cassete pousada
Que coloquei no video e precisava de ser rebobinada
Pus no Play e apercebi-me em poucos segundos
Que era o filme da vida que não vivemos juntos.