segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Limpezas

Hoje dei por mim no meio da desarrumação
Não me apercebi de ao meu redor crescer tamanha confusão
Sufocado pelo amontoado de coisas à minha volta
Decidi arrumar cada pedaço de nós que estava à solta.

Comecei muito rápido a separar as coisas por destino
As que deitaria fora e as que guardaria comigo
Não sabia se podia reciclar tantos dispersos materiais
Algumas coisas nossas eram feitas de algodão, outras de diferentes metais.

No meio da confusão encontrei álbuns de fotografias
Todas aquelas que não tirámos às nossas fantasias
Ao folhear as páginas revivia cada momento que não vivemos
E questionáva-me se aqueles locais permaneceriam os mesmos.

Junto à lareira encontrei cartas espalhadas
Talvez eu lhes tivesse pegado fogo para vê-las incendiadas
Mas se ali estavam talvez tivesse perdido a coragem
De as ver desaparecer em brazas como uma miragem.

Abri uma aleatoriamente e reparei que tinha uma morada
Duma casa onde tu não viveste duma aldeia inabitada
E onde certamente referia todas as minhas metáforas destinadas a ti
Em todos os versos que nunca te escrevi.

A um canto, encontrei cheio de pó um boneco felpudo
Pelo castanho, umas orelhas compridas e um sorriso mais bonito que tudo
Reparei no olhar decepcionado quando nos meus braços o recebi
Por ter sido um peluche que nunca te ofereci.

Por baixo dumas revistas que nunca lemos algo reluziu entre elas
Eram algumas medalhas que nunca ganhei que brilhavam como estrelas
Junto a elas um bilhete que não escreveste com o teu orgulho a descrever
Nas competições que eu não venci nem tu foste ver.

Perto da porta estava uma caixa meio-aberta
Camuflada pela poeira como se não quisesse ser descoberta
No seu interior estavam bilhetes de viagens que não fizemos
E postais de locais que sonhámos mas não estivémos.

Por todo o lado encontrei faturas de jóias que não te comprei
Varri montes de pétalas de flores que não te dei
E ao fundo do corredor encontrei roupas de mulher
Que não te serviriam mas não podiam ser de outra qualquer.

Numa prateleira cheia de objetos pequenos fui achar um anel dourado
Que nunca entraria no teu dedo nem que te o pusesse com o joelho no chão pousado
Devia representar o valor do pedido que te ia fazer
De um casamento na praia que nunca chegou a acontecer.

Ao lado do anel, estava um dente de tubarão
Achei estranho até que à cabeça me veio a recordação
Do aquário gigante onde não nos deitamos lado a lado
E onde não demonstramos o amor num gesto que não foi dado.

Consumido pelas alergias limpei a prateleira de uma vez
Até que ouvi o barulho de algo que caiu aos meus pés
Peguei, era uma chucha que devia pertencer
À nossa filhota que nunca chegámos a ter.

Suportes com Cd's de musica que nunca nos chegou aos ouvidos
Uma banda rock, uma diva do Brasil e outros artistas perdidos
Dvd's espalhados por todo o tampo da mesa
De séries policiais que não acabámos de ver de certeza.

No meio da sala encontrei uma cassete pousada
Que coloquei no video e precisava de ser rebobinada
Pus no Play e apercebi-me em poucos segundos
Que era o filme da vida que não vivemos juntos.







sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Martins' Room (inspirado em "Marvin's Room")

Garrafas espalhadas pelo vidro das mesas
E os meus olhos vidrados pelas luzes acesas
Raparigas por todo lado à procura do pecado
Devia ir para casa porque o álcool está a deixar-me arrasado
E lembro-me que a miúda que eu escolhi
Está feliz com outro em vez de me escolher a mim.

Mas vou ligar-lhe na mesma e dizer:

Deixa-o porque tu sabes que mereces melhor
Sabes que ele não te ama quando mostras o teu pior
Deixa-o porque tu sabes que mereces um melhor fim
Sabes que quando choras é porque ainda pensas em mim.

Garrafas na mão destinadas para ir sair
Os meus amigos estão à minha espera para podermos ir
Vou a um lugar onde já não ia algum tempo
Porque tinha medo de a encontrar num mau momento
Desta vez vejo todas as amigas dela por perto
Mas parece que ela não veio no dia certo.

Mas vou ligar-lhe na mesma e dizer:

Deixa-o porque tu sabes que mereces melhor
Sabes que ele não te ama quando mostras o teu pior
Deixa-o porque tu sabes que mereces um melhor fim
Sabes que quando choras é porque ainda pensas em mim.

Talvez não tenha escolhido a melhor maneira de seguir em frente
Tentei apagar-te mas foi indiferente
Mudei de número desculpa ligar-te a esta hora
Mas precisava de te ouvir e tinha de ser agora
Eu sei que o meu estado não é o melhor pra me ouvires
Estás a ouvir? Por favor não desligues
Eu sei que tenho outras há minha espera mas não interessa
Não queria habituar-me a uma vida como esta
Sim fiz amor com outras que não tu e foi estranho
Só refleti sobre o que fiz debaixo de água no banho
Acho que foi uma tentativa de me adaptar ao meu novo estado
Mas estou feliz por tu estares bem sem mim ao teu lado.

Estou mesmo, desculpa.

Talvez tenha demasiado rancor guardado
De qualquer forma não aguentei ter-te ligado
Só espero que ele não te faça mal e não te meta em esquemas.

...senão vamos ter problemas.




quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Um Sorriso Novo

Entrou uma rapariga nova na minha vida
Já tinha reparado nela mas passava despercebida
Apenas contemplava o sorriso dela escondido
Até que chegou o momento de nos termos conhecido.

Nunca fui de me acanhar sempre gostei de ser atrevido
E quando meti conversa despertei o seu lado desprevenido
Revelou-se difícil tal como eu esperava
Mas não contia o riso a cada piada que eu soltava.

Apróximamo-nos e pouco tempo já pareciam anos
E as horas em que não estávamos juntos já causavam danos
Dias inteiros juntos os dois passou a ser corrente
Primeiro dia em casa dela depois no mesmo sitio de sempre.

Tem graça como os olhos dela brilham quando a distância entre nós é pouca
E como eles entram em braza quando ela me vê com outra
Ciumenta como eu gosto mas nem me tenta controlar
Confia em mim, se não atendo nem insiste para não atrapalhar.

Ajudamo-nos um ao outro e eu admiro-a durante o estudo
E ficamos mais selvagens quando o quarto fica mais escuro
Ela dá-me tudo o que preciso e ainda mais do que o quero
Mete-me louco da cabeça quando eu menos espero.

Falamos sobre tudo, passamos horas à conversa
Ela sabe do meu passado mas confessa que não lhe interessa
Porque afinal ele ficou para trás e o meu presente é só mimos
Até porque águas passadas não fazem mexer moinhos.

Diz que eu lhe dou segurança, acerto no que ela precisa de ouvir
Que as minhas palavras a acalmam quando ela só pensa em desistir
Porque é uma mulher de sonhos e objetivos não se rende à futilidade
Esforça-se e já trabalha, é independente apesar da idade.

Os meus amigos gostam dela, já a aceitam ao meu lado
Dizem que gostam de me ver sorrir, é um sonho realizado
Fartaram-se de me ver passar por azar atrás de azar
Está na altura de ser feliz e habituar-me de novo a ganhar.

Não discutimos é um facto, talvez até esquisito
Mas picar-nos um ao outro é o nosso hobbie favorito
Não sei como tive sorte, nem se isto estava escrito
Mas a verdade é que ela conseguiu dar à minha vida algum sentido.


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Um Pouco de Nós (5:50)

Nem sei bem o conforto que me dava ouvir a tua voz
Sinto-me sereno quando me lembro dos nossos momentos a sós
Não sei se é sinal de esquecimento ou de memórias imperdíveis
Embora tenha perdido a fé em amores inesquecíveis.

Sabes tão bem quanto eu que estamos melhor assim
Que nem sente saudades de um pouco de mim
Embora eu pense com o meu lado convencido
Que te lembras de mim antes veres o teu corpo adormecido.

No fundo sabemos que o amor não nos vai voltar a sorrir
Que nada que venha depois do que tivemos o vai substituir
Vamos arranjar quem ocupe um espaço incompleto por obcessões
Que só vai dar lugar a tropeções em desilusões.

O conforto que havia quando os nossos corpos colidiam
Num acidente voluntário que os nossos desejos faziam
Não vai voltar a existir a serenidade num simples abraço
Não vamos ter a suspensão mágica no tempo e no espaço.

Os banhos que tomamos separados, longe de estarmos perto
Não vão arrefecer as nossas cabeças de pensar no incorrecto
Vamos sentir as mãos um do outro a percorrer o nosso corpo
A pensar nos sonhos limpos que o vento levou com um sopro.

Quando tocarem à campainha a tua respiração vai parar sempre
Com medo que seja eu e com a dúvida se queres que eu entre
E o meu telemóvel sempre que vibrar vai fazer o meu corpo estremecer
Com receio que seja uma mensagem tua que deva ou não responder

Não nos vamos enganar o nosso tempo morreu
Levei tudo o que é nosso quando quis quardar o que é meu
Mas se a vida é curta não temos muito mais pra viver
Porque aquilo que vivemos foi mais do que o que podíamos querer

Agora passamos na rua nem um sorriso esboçamos
Porque longe um do outro nem felizes estamos
Mas na segurança de estarmos longe sentimo-nos bem
Porque não há o perigo de nos magoarmos também.

Passo pela tua janela, claro que me lembro de ti
Nas tuas quatro paredes sentia-me mais em casa que aqui
Mas é escusado pensar nisso porque assim estamos melhor
Ou estamos tão habituados a mentir que já sabemos a mentira de cor.

Eu sei que não resultava faltava-nos sempre a razão
Mas juntavamos  razões para alimentar a nossa ilusão
E se a realidade em que vivíamos era tudo menos real
Ao menos nela eu sentia me vivo e imortal.

Perdemos todos os medos já não temos nada a perder
Tínhamos um ao outro e não há nada a fazer
Assim estamos mais fortes por dentro
Nada mais nos afeta e vamos sobrevivendo.

Vamos fazer de conta que somos apenas passado
Que nunca nos vemos ao nosso lado
E por muitas as vezes que choremos sem motivo
Que o motivo desse choro não seja termos desaparecido.