segunda-feira, 23 de setembro de 2013

À Deriva

É irónico que a minha cama de criança seja um barquinho. É engraçado vê-la e lembrar-me de todas as vezes que passei por fantasias de navegar pelos oceanos, ser pirata, sei lá... era demasiado pequeno para me lembrar ao pormenor das aventuras que passava no topo daquela cama como se tratasse sim dum barco a sério. Se calhar foi uma má influencia ter dormido tantos anos num lugar onde não existia realidade mas apenas aquilo que a minha cabeça mandava que existisse. Com o tempo cresci e deixei de caber naquela cama, mas mantive os mesmos ideais de navegante naquilo que não podia ser navegável. Meti-me em mares que não eram meus, ou não deviam. Conquistei-os sem qualquer consciência que por vezes a ousadia não é a melhor forma de mostrar que somos inteligentes e que nem sempre compensa o risco que colocamos nas nossas vidas quando "soltamos as velas". É estranho como cheguei tão longe com remos partidos, proa desiquilibrada, e apenas o mastro fixo e firme que me sustentava aguentou todas as pancadas que levei quando as ondas me empurravam com toda a força e brutalidade contra as rochas. Derrotei demasiadas criaturas marinhas e fui derrotado por muitas outras, mas mesmo depois de naufragado, agarrava-me às pequenas tábuas que sobravam e fazia qualquer tipo de plataforma que me impedisse de desistir e afogar-me no esquecimento. As correntes que atravessei e os tsunamis que resisti foram fenómenos que nenhum pequeno marinheiro ou surfisa amador conseguiria suportar. Inigualável a forma como remoinhos para mim não passavam de tempestades em copo de água, e atrevessava todas as catástrofes que o meu mar me impunha. Mas fui imprudente por achar que conseguiria controlar para sempre um mar que é maior e mais frio que eu.

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