terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Sonhador Acordado

Fim da tarde e eu sozinho a vaguear
Vinha de um convívio com os rapazes pra variar
Parei para observar e reparar no meu redor
Até que cruzo um olhar com um pequeno promenor 

Esse promenor aproxima-se e aborda-me
Eu vinha cansado mas ela acorda-me
E eu parece que desaprendi como falar

Como lidar perante o meu espanto
Eu só estava no meu canto
E ela decidiu vir-se infiltrar

Porque é que me estou a queixar?
Ela é gira e tem piada
Não parece ser de conversa fiada
E o decote parece que o vestido vai rasgar

Sabe o meu nome completo, os sitios que frequento
Diz que já lhe mostraram uns quantos textos e diz que tenho talento

Eu pergunto como é que ela me reconheceu
Ela confessa que é amiga de uma amiga da prima de um conhecido meu
E eu? Ainda nem sei como reagir
Mas sinto borboletas sempre que ela se lembra de sorrir

Dá pra ver que é mais nova ou pelo menos parece
E mente na idade com medo que eu a despreze
Mas essa maturidade que reflecte
Na postura e na silhueta
Só me puxa a fazer algo que nos comprometa

Perdi a timidez, e perguntei de uma vez
Se ia apanhar o trém das 19 e 23
Ela disse que talvez mas activou a ousadia
Disse que ia pra casa sozinha e que precisava de companhia

Eu como bom cavalheiro, não rejeitei a proposta
Aceitei a ideia e ela mostrou-se bem disposta 
Em resposta agarrou-me pelo braço
O juízo está escasso e sigo os seus passos

Sabia que não ia provar os seus sabores
Normalidade dos factos, vive com os progenitores
Mas continuo neste mundo às cores
Até porque as minhas intenções eram boas
Essa miúda não é como as outras
E eu tenho tempo

Mas ela adianta-se e à porta
Olha-me nos olhos e pergunta-me
Pela paciência para a aturar
Eu penso na melhor maneira
De entrar na brincadeira 
E digo que nem dei pelo tempo passar

E de facto já passou uma hora 
Ela diz que tem de ir para dentro e eu embora
E eu olho-a fixamente como um louco

E enquanto ela cora
Tento na minha sorte uma investida aleatória
Arriscando não levar troco

Mas ela sem medos agarra-me
E o seu beijo amarra-me
E eu perco a noção do espaço
Sem embaraço
Saliva flui sem preconceito
Eu surpreendo-me com o seu jeito
E deixo-me levar

Eternos segundos depois, quem sabe minutos
As nossas pulsações em tumulto 
E encerramos o beijo por dever
Ela pergunta quando me volta a ver
E eu já estou com saudades
Mas pra evitar barbaridades
Digo que volto a estar com ela mal puder

E assim entra em casa
E eu sinto a falta dela
Então espreito mais uma vez à janela

Só vejo um vulto do seu cabelo louro
Mas uma visão que valeu ouro
E me faz ansiar 
Pela próxima vez que vou ter a sorte dos nossos caminhos cruzar
E contar histórias em verso que só são possíveis a sonhar





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